25 de novembro de 2021

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A inusitada trajetória de Sébastien Thill, o luxemburguês que virou herói do Sheriff no Bernabéu

O gol que selou a histórica vitória do Sheriff Tiraspol sobre o Real Madrid dentro do Estádio Santiago Bernabéu teve um toque a mais de poesia. E não foi apenas pelo petardo que entrou diretamente no ângulo, garantindo o resultado aos 44 do segundo tempo. A pintura foi anotada também por um personagem inusitado: Sébastien Thill, o primeiro jogador luxemburguês da história a balançar as redes nas etapas principais da Champions League – desde a reformulação do torneio, em 1992/93. A trajetória do meio-campista de 27 anos até a Transnístria, aliás, possui mais detalhes que tornam tudo como um conto de fadas. Afinal, há pouco mais de um ano, ele ainda era um jogador semiprofissional que cuidava de campos de futebol em seu país e conciliava o trabalho de manutenção com os treinamentos.

O futebol corre nas veias de Thill. Seu pai, Serge Thill, defendeu a seleção de Luxemburgo nos anos 1990 e marcou mais de 100 gols pela liga nacional. Ao lado dos irmãos mais novos Olivier e Vincent, Sébastien foi incentivado a bater sua bola desde cedo. Porém, mesmo demonstrando talento, não quis abraçar de imediato o sonho como jogador profissional. O adolescente recusou uma proposta do Metz, clube da vizinha França que geralmente capta as melhores promessas luxemburguesas. Para ter uma juventude sem privações, ele preferiu mesmo tratar o esporte paralelamente à sua vida, e não torná-lo o centro de sua rotina.

Sébastien Thill começou a careira no Pétange em 2009, aos 16 anos, e passou três temporadas até se transferir para o Progrès Niederkorn, um dos clubes mais tradicionais do Campeonato Luxemburguês. Por lá, o meio-campista se destacou e ganhou as primeiras convocações para a seleção de Luxemburgo em 2015, anotando seu primeiro gol numa emblemática vitória sobre a Macedônia do Norte nas Eliminatórias para a Euro 2016. Já em 2017, como capitão do Progrès, Thill foi um dos heróis na histórica classificação sobre o Rangers nas preliminares da Liga Europa.

Os irmãos mais novos de Sébastien viraram profissionais antes do primogênito. Vincent passou pela base do Metz e ganhou sua primeira chance em 2016, aos 16 anos. Defendeu também Pau e Orléans, antes de passar pelo Nacional da Ilha da Madeira e de se transferir ao Vorskla Poltava nesta temporada. Na Ucrânia, se encontrou com Olivier, que jogava também no Progrès e se mudou ao Ufa em 2018, aos 22 anos, até acertar com o Vorskla. As trajetórias dos irmãos, seus companheiros na seleção principal, motivaram o Thill mais velho a também tentar sua sorte no exterior.

Nos últimos meses, Sébastien se empenhou para dar seu salto. Depois de sete temporadas com o Progrès, ganhou um contrato de empréstimo junto ao Tambov em setembro de 2020. Profissionalizado às vésperas de completar 27 anos, passou apenas quatro meses no Campeonato Russo, até assinar com o Sheriff Tiraspol em janeiro, novamente emprestado. Virou titular absoluto e uma referência no elenco, com seu conhecimento de diferentes idiomas facilitando o contato num grupo com atletas de 15 nacionalidades distintas. Já em campo, além de brilhar na conquista do último Campeonato Moldavo, também se provou decisivo nas preliminares desta Champions. Até viver seu ápice contra o Real Madrid.

Nesta quarta, Sébastien Thill pôde desfrutar de seu feito e ainda assim deu uma longa entrevista à revista francesa SoFoot. Abaixo, traduzimos alguns trechos da conversa. O meio-campista falou da partida, do reconhecimento, do sonho cumprido e da sua trajetória. Mostra um outro lado do futebol que ainda tem espaço para ser contado na Champions.

Sébastien Thill em ação por Luxemburgo (Foto: Imago / One Football)

A relação nos vestiários do Sheriff

“Temos um elenco muito animado. Falamos muito, em todas as línguas. Temos sul-americanos que preferem falar em espanhol entre si, africanos, europeus, também falam um pouco de russo, mas a mistura do elenco é ótima. E, dentro de campo, só existe um grupo. No nosso time, sou o único que fala em todas as línguas. Posso fazer piadas em português com os brasileiros, então quando preciso pedir a bola para Adama Traoré, faço em francês. Como no meu gol desta terça…”.

O objetivo do Sheriff na Champions

“Estamos num grupo difícil, mas já somamos seis pontos e isso é muito bom. Não devemos fazer mais cálculos que isso, vamos continuar focados no nosso jogo. Somos uma equipe de verdade, defendemos bem e sabemos como jogar futebol. Seja contra o Real ou contra o Shakhtar, marcamos belos gols em boas jogadas. Fazer quatro gols dessa forma na Champions, não pode ser considerado sorte. Temos o menor orçamento, viemos da Moldova, é normal que ninguém imagine que vamos ganhar uma partida. Não temos problema com isso, até nos fazia bem nos sentirmos subestimados. Mas isso acabou, temos que esperar que os próximos jogos sejam ainda mais difíceis”.

O contato com os astros do Real Madrid

“Não falei com ninguém do Real Madrid depois do jogo, não conseguia me levantar por causa das dores. Mas eles eram legais, tinham um comportamento normal, não eram arrogantes. Conversei muito com Modric durante a partida, falamos sobre o jogo e sobre as decisões do árbitro”.

Não quis trocar a camisa com ninguém do Real

“Mesmo se eu quisesse trocar minha camisa, não poderia ter feito isso. Assim que o jogo acabou, desabei por causa das cãibras. E eu nunca corri atrás de um jogador para pegar sua camisa, nunca fiz isso, não é minha. Se eu me encontrar com um cara no corredor, tudo bem, trocamos se você quiser. Mas tem que acontecer naturalmente”.

O golaço

“Eu estava mais tenso antes do primeiro jogo, contra o Shakhtar. Ali, francamente, não prestei atenção no significado. Diante de uma jogada como a do gol, não há dúvidas sobre o que fazer. Você precisa tentar as coisas. Você não vai driblar na sua área, mas, quando está no ataque, se tiver uma ideia, tem que tentar ao máximo. Não é uma questão de talento, mas de hábito. Se no treinamento você não acerta, nunca vai tentar a sorte numa partida”.

A herança de família

“Meu pai tinha um grande chute. Ele tinha mais potência que meus irmãos e eu, mas nós somos mais técnicos. Já tinha feito um gol do tipo na última temporada, um chute de 50 metros. Mas digamos que, quando você marca assim contra o Real Madrid, fica um pouco mais empolgado”.

A tatuagem em homenagem ao futebol

“Fiz essa tatuagem há dois meses, pouco antes da terceira fase eliminatória da Champions. Sou eu um tempo atrás, com a camisa 31. Há uma taça acima de mim – não é a da Champions, como li, mas só um troféu qualquer – e a bandeira de Luxemburgo. É uma tatuagem que diz que tenho sonhos no futebol, tanto com os clubes quanto com a seleção. Já o número 31 é uma referência a Schweinsteiger. Na minha canela, tenho uma tatuagem que representa uma camisa dele. Sempre foi meu jogador favorito, não tenho nenhum outro ídolo”.

A profissionalização tardia

“Quando eu era mais jovem, virar profissional nunca fez parte dos meus objetivos. Mas o tempo foi passando, vi meus dois irmãos mais novos se profissionalizarem, meus companheiros também, fiquei tão contente por eles que tive vontade de me juntar. Disse a mim mesmo que não gostaria de terminar minha carreira com arrependimentos, então me esforcei mais. Nunca recebi uma oferta antes das que surgiram há um ano. Hoje digo a mim mesmo: por que não tive essa mentalidade antes? Se eu tivesse essa atitude há dez anos, talvez fizesse uma carreira melhor. Ou teria estragado tudo e voltado a Luxemburgo. Nunca saberei, mas tenho que me perguntar”.

As mudanças de hábitos

“A idade me fez amadurecer. Antes eu era um pouco maluco, queria curtir a vida, considerava o cigarro e a bebida minhas companhias. Também não me importava com a alimentação, comia pizza às 10 da manhã. Perdi seis quilos desde então, me sinto bem e digo a mim mesmo que terei tempo de aproveitar quando minha carreira acabar. E penso que fumar um cigarro ou outro de vez em quando não prejudica. Há muitos jogadores que fumam e nem sabem”.

A carreira além do futebol

“No início da temporada passada, eu ainda estava em Luxemburgo com o Progrès Niederkorn. Até joguei a primeira rodada. Antes de assinar com o Tambov e depois com o Sheriff, tinha um trabalho ligado ao futebol, era empregado do município de Differdange. Eu cuidava dos campos, cortava a grama do estádio Jos-Haupert, onde jogava aos domingos. Fazia isso, pegava os galhos das árvores e as folhas que caíam no chão. Essa experiência faz com que eu tenha uma relação especial com o campo, sempre observo de perto o gramado antes dos jogos”.

E como era o gramado do Bernabéu?

“O gramado do Bernabéu não tinha nada de especial, fiquei até um pouco decepcionado. Eles tinham acabado de colocar uns grandes trechos de grama, acho que dentro de um mês estará ótimo”

Mais herói em Luxemburgo ou na Moldova?

“Sou mais herói em Luxemburgo! Meu telefone continua tocando desde ontem, sou incapaz de ler todas as mensagens enviadas para mim. Já em Moldova, quando chegamos ao aeroporto, havia apenas alguns jornalistas esperando por nós. Ser o primeiro luxemburguês a marcar na Champions é um orgulho enorme, isso vai ficar para o resto da vida”.

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